Conto - As Terras de Gelo de R.S.Merces




A uma milha da costa da África os homens começaram a temer e sussurrar os males que nos aguardavam no Mar Tenebroso. Um jovem receava tanto a morte e lamentava por ainda não ter se deitado com uma dama, não que fosse nascido para uma senhora de respeito. Deixei que mergulhassem em seus arrependimentos e permaneci as primeiras horas enfornado na minha cabine, delirando aos efeitos do rum. A caravela roubada na Cidade do Porto mostrava-se resistente aos ventos fortes que anunciavam tempestades no sul. Filho de um profeta do futuro, Hansen proferiu serem presságios dos deuses das águas.
Muito se dizia sobre mim no norte. Chamavam de louco ou aclamavam a coragem de enfrentar os piores perigos já contados e principalmente relatavam minha descrença no medo perante aos deuses. As palavras não se faziam mentiras e seria um louco caso fraqueja-se para os mitos.
O acordo com a coroa portuguesa chegou a uma quinzena de navegação alcançados por oficiais reais. Eles traziam um decreto assinado pelo rei absolvendo a mim e aos demais acusados de pirataria. Segundo o documento deviacontinuar com a expedição e receber em meus aposentos um cartógrafo a serviço da coroa. Não me foi apresentadas muitas alternativas e era de deleite pensar na submissão da cartografia a um pirata qualquer, cujos modos não se podiam confiar. Logo assinado o acordo, os tripulantes expulsaram os oficiais com histórias de monstros gigantes nas profundezas. O fato de ainda não termos visto uma besta às vezes parecia entristecê-los e os contos de caravelas desconhecidas eram recorrentes.
Fui ter-me com o cartógrafo no cair da noite quando uma torrencial tempestade tomou o mar formando ondas gigantes. Ele estava encolhido ao lado das redes no porão, junto de dois bêbados sussurrando frases entrecortadas em seus sonhos.
— Então, temos aqui um homem que conhece o mar e mesmo assim o teme?— Perguntei, agarrando a garrafa de rum de um dos homens e tomando-a para mim. — Acredita em certas histórias, senhor cartógrafo?
— Pergunta como se já não fosse suficiente enxergar o medo transparente em meu rosto— disse ele no balançar brusco das águas.
— Um dos nossos tripulantes diz que as nuvens de hoje tinham a forma de uma grande besta marinha e os ventos traziam prenúncios de noite obscura. Parece-me que não foi de total inutilidade suas palavras — sussurrei levando a garrafa de rum à boca e esgueirando-me entre as redes para agarrar a madeira da caravela. — O reflexo da criatura na nuvem era tão tenebroso que podemos esperar mortes antes do sol nascer.
As palavras foram capazes de acordar os bêbados e fazê-los gritar “criatura à vista”, correndo para ajustar a latina de volta para o norte. Segui-os a encontrar com tripulantes de um lado para o outro do convés desesperados para manter a água longe. As ondas jogavam a caravela para todas as direções como um papel a voar. Hansen observava o movimento do mar e seu silêncio parecia aterrorizar os outros tripulantes ainda mais. O rapaz que passara os dias a sonhar com a nudez de uma mulher gritou diante dele:
— Diga Hansen, o que vê?
— Ele está aqui — sussurrou, chamando a atenção de todos.— As ondas são os movimentos de seu corpo esgueirando pelas águas do Mar Tenebroso. Aguarda estarmos despreparados para atacar um a um e afundar a caravela.
Um grito estridente percorreu-nos entre cochichos receosos. O cartógrafo estava parado no portal para o porão temendo ser tocado pela luz da lua e revelar-se frágil para o monstro marinho. Hansen virou momentaneamente e olhou o enviado da coroa com olhos pálidos e transfigurando-se. Sua pele aparentava linhas fortes e aos poucos se tornou tão torrencial quanto uma pedra.
— PARA O NORTE, SEUS PIRATAS IMUNDOS!— voltou a gritar o cartógrafo, ignorando o vidente a escarnecer de sua figura humana.
— Estamos na rota para o abismo do mundo e será lá que nossos destroços acabaram para sempre. A besta carrega-nos para a morte, cartógrafo. O que seus olhos avistarão nunca poderá ser lido por alguém. — A voz de Hansen era grave e seu aspecto assustava os céticos quanto à lenda dos videntes nascidos da rocha.
Conta-se muito entre piratas que uma criança fora encontrada nas montanhas para lá do norte nua e com olhos capazes de persuadir qualquer um a cumprir seus desejos. Tratava-se de terras inabitadas e assim a nomearam filha das rochas. A criança cresceu e deitou com todos os homens que devia sua gratidão. Era incapaz de amar um somente e filhos a deixaram feito folhas que caíam das árvores. Ao certo não se sabe como esses homens a encontraram e muito menos como morreram. Alguns zombam e dizem que não suportaram o fogo da mulher e preferiram morrer a ver-se perdido na loucura. Fruto das relações, filhos das rochas foram espalhados pelo mundo e receberam diversos nomes, “profetas do futuro”, “crias do diabo”... Hansen era um deles e mesmo que o conhecesse desde quando era criança e viajávamos com meu pai, não me faço um adorador de suas palavras.
Se todos iam morrer ou não, era melhor reservar o meu rum para a eternidade. Passei em silêncio pelos tripulantes e caminhei para os meus aposentos no porão com cochichos permeando atrás de minhas costas. O cartógrafo seguiu-me ordenando para “acabar com a farsa que era essa viagem.” Eu acenei sobre o ombro para ir embora.
— Não contou a eles, não é? Sei sobre o que sei pai descobriu no abismo do mundo.— Parei e engoli em seco.— Não é o limite do mundo queprocura Capitão Barret, filho de John Barret. Esse sim é seu verdadeiro nome e o teme tanto quanto temo o mar.
—E por que um Barret esconderia seu nome? Não é uma honraria carregar o sangue do primeiro desbravador dos mares do sul?— Segui meu caminho nos corredores estreitos.
—Talvez por temer o que a coroa poderia fazer com os escritos do seu pai.
— O que sabe sobre os escritos, seu oficial imbecil? — Meu golpe foi tão rápido que foi impossível notar a lâmina afiada na mão do cartógrafo. Ele a segurou contra meu pescoço, enquanto o erguia.
— Seria prudente pensar em seus atos, Capitão Barret. Assim que deixou Portugal com sua caravela roubada os oficiais a serviço do rei encontraram uma caixa escondida entre as pernas de uma prostituta muito frequentada pelo senhor. Ela nada disse sobre a origem do objeto, mas foi fácil retirar dela seus pertences. Ah, não posso esquecer-me de dizer que logo após ela deitou-se com um deles e gemeu seu nome antes de morrer.
Engasgava-me com o ódio perfurando meu ser e consumia a réstia de bondade para com o cartógrafo. Ele apertou a faca contra minha pele deixando uma gota de sangue cair em suas vestes.
— Contudo ainda lhe falta escritos e acreditamos que seja esse o propósito de sua viagem. Engano-me?
— Ele levou os últimos escritos consigo na viagem para as terras de gelo — respondi o soltando.
Fomos para os meus aposentos e servi-me de rum ignorando os bons modos na presença do cartógrafo. Sentamos separados por uma mesa de madeira e ele tirou de seu bolso um pergaminho com seus primeiros esboços para as rotas de John Barret. Olhei com desdém para os desenhos.
— É tão descrente quanto ele para as lendas dos mares. As primeiras cartas de seu pai desmentem a existência de bestas marinhas e anseia encontrar o limite do mundo, onde não houvesse vida. Por isso aliou-se a um profeta do futuro.
       — Terá os escritos assim que o encontrarmos — disse, acenando para que ele deixasse-me sozinho.
Não me lembro de ter dormido, todavia o acordar foi marcado pela presença das imagens de meu pai despedindo de mim na casa de Josephine, sua prostituta, a qual a filha amei. Ele nunca mais voltou e não poderia negar pensar o mesmo. A tempestade havia passado e os tripulantes enrolavam-se em trapos de dormir a manter os corpos aquecidos. O frio tocou minha face como se retalhasse a carne afim de ver o sangue jorrar. Não enxergava absolutamente nada. Uma densa névoa tirara toda a visibilidade do que nos aguardava.
Por dias um silêncio sepulcral recaiu sobre a caravela e nem mesmo ouviu-se profecias de Hansen. Não existia dia e noite e contávamos as quinzenas pelo número de mortos lançados ao mar. Cinco homens jogados no mar marcava uma quinzena. No início eles morriam de frio e recebiam as honras dadas a um pirata. Alguém dizia um discurso entrecortado e lançávamos para as águas eternas. Com o passar do tempo a fome começou a ser a causa das mortes e perdíamos nós mesmos devorando aqueles que compartilharam o nosso rum em dias de vida. A tripulação se resumia a vinte homens quando batemos em um bloco de gelo que flutuava sobre as águas.
A minha felicidade era infortúnio dos sobreviventes. Enquanto ordenava que preparassem para ancorarmos, uma forte dor na perna desequilibrou-me. Os homens vieram me ajudar e sob ordens do cartógrafo, deitaram-me em uma das redes no porão. Ele veio ter-se comigo e cortou o tecido das minhas calças com sua faca. Minha perna estava roxa e não consegui sentir nada quando ele a tocou.
— O sangue parou de circular — dissera com a voz engasgada.
— Vou morrer, sei disso. Ache meu pai, eu te imploro.— Ele acenou com a cabeça e deixou-me.
Continuou havendo mortes na minha cólera e receavam descer da caravela e pisar sobre o gelo. Hansen morreu ao meu lado com os olhos abertos e dizendo a mim que o segredo só seria revelado no futuro, mas não falariam no nome de meu pai. Contei três mortes e senti o frio cobri-me com sussurros de John Barret. Fechei os olhos e lamentei não ter feito do cartógrafo um pirata.

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